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Armadilhas evolutivas da doença de Chagas

Priscila Biancovilli

DUma pesquisa desenvolvida pelo Laboratório de Sinalização Celular, coordenado pelo professor Mário Alberto Cardoso da Silva Neto, estuda as “maquinações” evolutivas desenvolvidas por artrópodes hematófagos para facilitar a proliferação do parasita causador da doença de Chagas no organismo humano.  Hoje em dia, entre 8 e 12% da população mundial está infectada por algum tipo de doença transmitida por esta classe de animais, como mosquitos, carrapatos e barbeiros.

Esses insetos nos antecedem no planeta, e com o passar dos tempos desenvolveram uma capacidade de se alimentar do nosso sangue. “Originalmente eles obtinham sangue de outros organismos, como dinossauros e mamíferos primitivos. A evolução permitiu com que eles desenvolvessem ferramentas farmacológicas e bioquímicas que os capacitaram a lidar com o sangue humano e seu processo inflamatório”, explica Mário Alberto.

A doença de Chagas não tem cura. As vésperas de completarmos 100 anos de sua descrição em 2009, não possui hoje níveis significativos de transmissão no Brasil. Ainda assim, deixou um ônus de seis milhões de pacientes infectados. Qual a principal conseqüência dela? “Mais ou menos um terço destes pacientes vão desenvolver uma doença chamada cardiomiopatia chagásica crônica. O coração destes pacientes estará infectado com o parasita e eles vão ter uma série de distúrbios eletrocardiográficos que os impedirá de ter uma vida normal”, lamenta o professor.

Sabe-se que lipídios especialmente a lisofosfatidilcolina ou LPC, facilitam a proliferação da doença de Chagas e também está presente no nosso organismo. Por isso o organismo humano sequer consegue gerar anticorpos contra essa molecula. O grupo de pesquisa do IBqM entrou em contato com o Dr. Roberto Cury, do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, que trata dos sintomas dos pacientes chagásicos, para tentar entender melhor os mecanismos da doença. Descobriu-se, surpreendentemente, que algumas das drogas usadas no tratamento aumentam a concentração da mesma molécula que o barbeiro injeta na pele.

“A próxima pergunta que nossa pesquisa tentará desenvolver é a seguinte: será que ao tratar o sintoma da doença com a droga, não estamos piorando o prognóstico deste paciente ? Apesar de o Brasil estar livre da transmissão de Chagas, podemos gerar novas alternativas de tratamento para os pacientes que já estão infectados, à luz deste conhecimento”, afirma o professor. 

A LPC produzida pelo barbeiro, parasita o ser humano, também é um problema muito grande para outra doença, a aterosclerose. Essa doença afeta principalmente o coração, e esta é uma outra coincidência interessante, pois ambos os problemas (aterosclerose e doença de Chagas) afetam esse órgão. Metade da população ocidental morre de acidentes cardiovasculares (isquemia, tromboembolismo pulmonar ou dos membros inferiores, ou infarto do miocárdio).

“Agora queremos testar, junto com o pessoal do Hospital universitário, se uma droga que diminua os níveis deste lipídio melhora o prognóstico dos pacientes chagásicos. Na verdade esta droga já existe, e se chama Darapladib. Trata-se de uma esperança, e é neste sentido que nossa pesquisa está caminhando agora”, explica Mario Alberto.

Mais a fundo - Muitos grupos no mundo tentam identificar moléculas na saliva dos insetos que mantém o sangue fluido e permitam a perfuração da pele sem causar um processo inflamatório. Há cinco anos, aproximadamente, os estudiosos perceberam que boa parte dessas moléculas são proteínas. “Foi então que o grupo liderado pela professora Geórgia Atella, do mesmo Laboratório, identificou a lipoproteína do inseto que abastecia as glândulas salivares de lipídios. Alguns desses lipídios especialmente a lisofosfatidilcolina ou LPC serão injetados na pele do hospedeiro durante a alimentação do inseto”, continua o professor.

Em 2003, a tese de doutorado do aluno Daniel Golodne do grupo da Profa. Atella mostrou que a LPC bloqueava a reação de agregação plaquetária do sangue, mantendo o sangue fluido para o inseto conseguir se alimentar. Quando o inseto perfura a pele, deixa próximo dali uma “piscina” de saliva. Eventualmente, o animal também defeca ali, e se a pessoa coçar aquela perfuração, as fezes entrarão no organismo do indivíduo, contaminando-o com parasitas que podem estar presentes naquele material, como por exemplo o Trypanosoma cruzi (causador da doença de Chagas).

“Um outro aluno de doutorado em meu laboratório, Rafael Mesquita, hoje docente da Escola Técnica Federal de Química, mostrou que se você contamina um camundongo com saliva e depois disso traz o parasita, existe um aumento da infecção. Ou seja, a interação da saliva com a pele prepara aquele local para uma posterior colonização pelo parasita que está nas fezes”, esclarece Mário Alberto. Porém, não se sabia como este processo tomava forma. Foi então que veio a dissertação de mestrado e uma parte do doutorado, ainda em desenvolvimento, do aluno Alan Brito.

“Descobrimos que a saliva era capaz de modular a célula do hospedeiro. Utilizamos como padrão uma célula chamada macrófago, extraída dos camundongos. Observamos que esta célula se modificava ao entrar em contato com a saliva. Primeiro porque existe um aumento da concentração de cálcio em seu interior. Segundo porque a produção de óxido nítrico era suprimida. Uma maneira de uma célula hospedeira se defender de ataques patógenos é justamente produzindo esta substância, o óxido nítrico. Ou seja, um mecanismo para o macrófago se defender da invasão do T. cruzi já estava diminuído pela saliva do barbeiro. Fizemos também a biópsia de pele de camundongos. Injetamos saliva ou o fosfolipídio e vimos que ambos recrutavam as células inflamatórias (de defesa) do local”, explica Alan. 

Em médio prazo, este mecanismo também é imunosupressor. Ou seja, ele atrai as células para um mesmo lugar, desarma-as, invade-as e impede que elas produzam um sinal que chamamos de resposta imune inata. “Quando entramos em contato com uma molécula pela primeira vez, algumas células interpretarão aquilo como uma parede de bactérias, por exemplo. Assim, em um próximo contato, o organismo montará uma resposta imune mais rapidamente. Esses resultados estão publicados na revista Infection and Immunity desse mês de dezembro”, continua Mário.

29/12/2008

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