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Genética forense
Atrás de novas pistas

Talvez poucos cariocas e brasileiros saibam que entre 1772 e 1830 havia na zona portuária do Rio de Janeiro um cemitério destinado exclusivamente aos escravos que ali aportavam e que morriam nos barcos ou logo após a chegada. Esse foi o chamado cemitério dos Pretos Novos que chegou a abrigar um número total estimado de 60 mil escravos, enterrados ali em condições precárias e sem muita cerimônia.

Transcorridos 180 anos, uma parceria entre pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz e do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ aplicará técnicas de genética forense nos ossos encontrados nesse cemitério para traçar um mapeamento geográfico sobre a origem desses escravo.

O pesquisador Franklin Rumjanek, da UFRJ, explica que a análise do DNA é uma verdadeira máquina do tempo para fins forenses e contribuirá para reforçar as origens dos restos encontrados no cemitério dos Pretos Novos. Serão extraídos o DNA de ossos e dentes. A dificuldade é que alguns ossos foram submetidos a diferentes graus de queima.
“A aplicação de técnicas forenses no caso dos Pretos Novos representa um novo e importante desafio para os pesquisadores forense da equipe do Laboratório Sonda da UFRJ”, afirma Rumjanek. “Os diferentes graus de queima nos ossos constitui uma questão a mais a ser investigada e de grande aplicação à própria genética forense. Até que ponto pode-se recuperar DNA de material queimado e calcinado, e em diferentes gradientes?”, se questiona.

Rumjanek explica que com os resultados obtidos nos ossos, que oferecem material mais abundante que os dentes, será possível ainda confirmar os resultados para haplótipos nesse cemitério, ajudando a descobrir de onde vieram os escravos, completando assim os dados históricos sobre suas origens. Isso pode ser realizado por meio da pesquisa dos chamados haplogrupos, que são trechos curtos na sequência do DNA e que indicam a origem étnica dos ancestrais dos indivíduos cujos restos mortais foram encontrados nesse cemitério.

Se bem sucedida, a investigação também terá potencial para descobrir vestígios de DNA de parasitas, como o do plasmódio que causa a malária e as bactérias que provocam a tuberculose, doenças relatadas para a época, e cuja identificação no sangue circulante permite identificar sua presença também nos ossos.

Sheila Mendonça de Souza, da Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz, explica que esses aspectos palepatológico e paleoparasitológico poderão fornecer ainda informações importantes sobre a introdução dessas parasitoses no Brasil.
Cemitério dos Pretos Novos - Descoberto em 1996, quando uma casa no bairro da Gamboa estava em reforma, o tema virou enredo do livro “À flor da terra: o cemitério dos Pretos Novos no Rio de Janeiro”, de Júlio César Medreiros da Silva Pereira, publicado em 2007, pela Editora Garamond.

Passados alguns anos, o achado despertou a curiosidade de vários cientistas das mais diversas áreas como a antropologia biológica, arqueologia e geoquímica que procuravam responder quem eram esses escravos, quais foram suas origens étnicas, morriam tão jovens por já estarem doentes? Até o momento, as análises bioantropológicas têm sido realizadas em ossos e dentes na busca por sinais que possam revelar sua origem dentro do continente africano. A observação de dentes entalhados e limados, as chamadas alterações culturalmente induzidas, permitem deduzir de quais regiões vinham esses escravos e assim tentar desenhar um mapeamento geográfico. A busca por respostas a esses achados acabou envolvendo vários grupos de pesquisa. Do Rio de Janeiro, a Ensp/Fiocruz, o IBqM e o Museu Nacional, ambos da UFRJ; e mais a UnB, a Universidade do Pará, e a Universidade de Indiana, nos EUA.

28/05/2010

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