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Plágio de ideias

Estudo insere Brasil na discussão internacional sobre integridade em pesquisa

Por Cília Monteiro

Copiar uma ideia na introdução de um artigo é considerado plágio científico? Será que preparamos nossos cientistas para lidar com este tipo de questão ética? Os casos de má conduta na ciência estão cada vez mais frequentes no mundo todo e, enquanto os Estados Unidos e países da Europa dominam as discussões sobre o assunto, na América Latina a questão ainda não tem a atenção que merece na comunidade acadêmica. Sonia Vasconcelos, pós-doutoranda do Instituto de Bioquímica Médica (IBqM) da UFRJ, com a supervisão do professor Hatisaburo Masuda, realiza um estudo pioneiro na área, que tem como meta o desenvolvimento de ações educacionais para inserir os jovens pesquisadores brasileiros nessa discussão internacional.

O projeto, iniciado no final de 2009, visa o desenvolvimento de políticas de integridade em pesquisa em programas de pós-graduação em ciências no Brasil. Para alcançar este objetivo, Sonia realiza um estudo piloto que inclui entrevistas com alunos voluntários provenientes do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) e do Programa de Pós-Graduação em Química Biológica do IBqM. “Procuro entender as percepções desses alunos sobre conceitos de originalidade e redundância na ciência, bem como o de plágio científico. Também discutimos sobre como eles percebem a competição na ciência e o momento de ‘publicar ou perecer’ na academia”, conta.

Mesmo no estágio inicial da pesquisa, Sonia já adianta que os participantes compartilham muitas dúvidas e preocupação com o tema. O projeto também visa identificar as dificuldades dos alunos de pós-graduação na elaboração de artigos em inglês. Serão promovidas mesas-redondas sobre plágio e oficinas de comunicação científica em inglês, com participações de professores e editores de periódicos internacionais. Inclusive, a pesquisa também conta com a colaboração de Nicholas Steneck, consultor do Escritório de Integridade em Pesquisa dos Estados Unidos. Os primeiros resultados serão apresentados este mês na II Conferência Mundial de Integridade em Pesquisa, em Cingapura.

Esta será uma ocasião importante, pois a organização da conferência pretende elaborar um documento oficial que tornará mais claro alguns conceitos e diretrizes para o avanço das discussões sobre o tema. Segundo Sonia, a discussão atual sobre ética e integridade em pesquisa científica marca um momento único na história da ciência: “Mudanças significativas nas políticas editoriais de inúmeros periódicos científicos e novos critérios para a avaliação do mérito de projetos de pesquisa em vários países são reflexos desse contexto”. Ou seja, as editoras estão cada vez mais preparadas para lidar com problemas como o plágio científico. Algumas delas, como a Elsevier, Wiley Blackwell, e Nature Publishing Group, contam com programas de computador que podem fornecer uma informação preliminar sobre a originalidade textual dos manuscritos enviados. Os editores dos periódicos também são auxiliados por um comitê internacional (“Committee on Publication Ethics”), que estabelece uma estratégia padronizada para lidar com má conduta em publicações.

Em seu doutorado, Sonia já havia investigado as percepções de plágio entre um grupo de cientistas brasileiros. Apesar do caráter qualitativo da pesquisa realizada, a abordagem do assunto teve repercussão internacional, com uma publicação recente no EMBO Reports, do grupo Nature (http://www.nature.com/embor/journal/v10/n7/abs/embor2009134.html). Numa perspectiva preliminar do estudo, foi constatado que os limites do que pode ser considerado plágio quando o assunto é o texto, não se mostraram muito bem definidos entre os participantes. O conceito de plágio científico, especialmente o “empréstimo textual” em artigos, ficou aberto a múltiplas interpretações.

A pesquisadora ressalta que o ideal seria reescrever com outras palavras as ideias centrais do texto, ou unidade de texto. Esta recomendação é detalhada, inclusive, por editoras como a Elsevier. “É uma forma de utilizar o conteúdo de outros trabalhos com legitimidade, porém isso não exclui a citação; ela é obrigatória, já que as ideias contidas no material parafraseado pertencem a outros autores. Inclusive, este é um viés cultural importante, predominante em países de língua inglesa”, explica. “Entretanto, grandes quantidades de textos parafraseados também podem causar a impressão de uma ‘colcha de retalhos’ e comprometer, neste contexto atual, a originalidade de uma submissão”, alerta.

27/07/2010

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