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Vacina contra carrapatos bovinos

Priscila Biancovilli

 

Uma pesquisa do laboratório de Bioquímica de Insetos Hematófagos da UFRJ, coordenado pelo professor Pedro Lagerblad, busca desenvolver alternativas de combate a uma praga que gera prejuízos vultosos à pecuária brasileira: o carrapato. Este pequeno inseto pode causar uma série de problemas aos bovinos e resulta em prejuízos da ordem de U$ 1 bilhão por ano, apenas no Brasil.

“São três tipos de problemas que os carrapatos causam. Primeiro, um animal muito parasitado pode perder até 100 mililitros de sangue por dia. Em um grande espaço de tempo, esta perda prejudica o crescimento do animal. Segundo, há danos no couro do bovino, o que gera sua desvalorização comercial. Terceiro, o combate ao carrapato é feito atualmente com doses maciças de inseticida, praticamente o mesmo que se usa em casa para matar baratas e mosquitos”, explica Lagerblad. A aplicação desse material é feita com a retirada dos animais do pasto e banhando-os completamente, ou criando uma piscina em forma de corredor, que afunda de forma gradual até que o bovino se cubra com o inseticida. O custo de mão-de-obra destes processos é muito alto, e precisa ser repetido de tempos em tempos.

Existe ainda um quarto elemento que não afeta a produção nos dias atuais, mas representa um fantasma prestes a se materializar a qualquer momento. “Um dos maiores mercados da carne de exportação brasileira é o da União Européia (UE), que está estabelecendo critérios cada vez mais rigorosos com relação à contaminação com agrotóxicos – tanto em produtos de origem vegetal quanto de animal. O problema é que o carrapato, com o passar dos tempos, se torna resistente aos inseticidas, forçando o aumento da concentração dessas substâncias. Caso a situação permaneça assim, logo a carne brasileira se tornará inviável para a UE”, alerta Lagerblad.

No Brasil, as pesquisas que visam a criação de uma vacina eficiente para as cepas de carrapatos nacionais contam, além da UFRJ, com outros grupos como da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade de São Paulo e Universidade do Norte Fluminense.“Aqui no laboratório, procuramos estudar vários aspectos da biologia do carrapato. Já conseguimos mostrar que alguns alvos internos nos anticorpos do bovino chegam dentro do carrapato – ovários e aparelho digestivo, por exemplo. Percebemos que qualquer parte da fisiologia do carrapato pode a princípio gerar um alvo. Assim, buscamos desenvolver métodos de controle que possam funcionar dentro desta abordagem – localizar o antígeno, identificar o gene e verificar sua eficiência”, explica.

O laboratório também estuda a proteína heme do sangue – parte componente da hemoglobina, que dá a cor vermelha ao sangue, e na qual o oxigênio do ar que respiramos fica ligado. “Este pigmento em princípio aumenta a produção de radicais livres, prejudiciais ao organismo. A idéia é que isso seria uma espécie de calcanhar-de-aquiles para o carrapato. Queremos compreender os mecanismos anti-oxidantes do inseto e verificar de que forma podemos bloquear esta ação, permitindo que os radicais livres ajam com mais força”, atesta Pedro.

Para este ano e o próximo, este grupo do Instituto de Bioquímica Médica ainda pretende testar genes do carrapato, saber como são expressos e entender detalhes de sua ação. “Por exemplo, qual gene é chamado a agir quando o carrapato ingere sangue? Esse é o alvo preferencial que devemos testar, e o que estamos desenvolvendo ao longo deste ano. A obtenção de novos antígenos com capacidade de oferecer proteção ao gado já foi alcançada, mas o grau de proteção obtido ainda não foi alto o suficiente para viabilizar o desenvolvimento de uma vacina com valor comercial”, explica.

Um grupo de pesquisa australiano foi pioneiro na criação de um projeto que busca alternativas ao inseticida no combate a carrapatos. A idéia se baseou em reconhecer que anticorpos do hospedeiro vertebrado que fossem dirigidos contra o carrapato deveriam interferir na fisiologia do inseto. Ao picar um animal, o carrapato suga seu sangue e entra em contato com uma série de proteínas presentes neste meio. Pensou-se, portanto, em fazer com que uma ou mais dessas proteínas ataquem partes do organismo dos carrapatos, fragilizando-os.

A primeira tentativa comercial do grupo australiano tratou de atacar o aparelho digestivo dos carrapatos, através do uso de uma proteína que serve como antígeno (inicia uma resposta imune dos insetos). Isso gerou uma vacina comercial. “No entanto, os resultados desta vacina na América Latina foram muito ruins. Descobriu-se, com o tempo, que existem diferentes cepas de carrapatos em diferentes partes do mundo, fazendo com que o antígeno não se torne eficiente”, finaliza Pedro.

17/10/2008

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