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Peixes que produzem calor

Priscila Biancovilli

Nas aulas de Biologia, é normal lermos em livros que os peixes possuem uma característica diferente de nós, humanos. Eles são ectotérmicos, ou seja, a temperatura de seus corpos acompanha a do ambiente onde vivem, não havendo produção interna de calor. No entanto, um grupo de peixes aparece como exceção à regra, incorporando a capacidade de manter a temperatura de uma parte de seus corpos constante - em torno de 25oC -, mesmo em águas frias. São os peixes endotérmicos, estudados pelo grupo coordenado pela professora Ana Maria Landeira, do Laboratório de Transporte Iônico em Membranas Biológicas, do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ.

“Nosso trabalho é sempre comparativo, pois existem muitas pesquisas estudando o processo de regulação da temperatura do corpo em mamíferos, mas quase não se encontram estudos com peixes. Assim podemos estabelecer diferenças importantes na termoregulação de animais tão distantes evolutivamente”, atesta a professora.

O objetivo do trabalho é, a partir de uma análise aprofundada do metabolismo desses peixes, pensar o desenvolvimento de novos fármacos que possam ajudar no emagrecimento, por exemplo.

“Pode acontecer de pessoas com peso elevado terem o metabolismo naturalmente mais lento. Talvez, em um futuro não muito distante, seja possível desenvolver pílulas que acelerem o metabolismo humano e façam as pessoas emagrecerem sem nenhum esforço, apenas suando. Hoje em dia tudo é possível!”, comenta Landeira.

Os peixes endotérmicos podem ser classificados em dois grupos, explica, o primeiro é composto por atuns e algumas espécies de tubarão da família Laminidae, como o tubarão branco, o mako e o tubarão salmão. Eles possuem como característica evolutiva a alta velocidade, ou seja, conseguem nadar a velocidades de até 70 km/h. Estas espécies de peixe mantêm o corpo aquecido, mas o coração permanece ectotérmico. O segundo grupo compõe-se dos peixes de bico: marlin azul, peixe vela e o peixe espada, que possuem um tecido especializado em produzir calor, aquecendo apenas os olhos e o cérebro. Esta estrutura é chamada de “órgão do calor”.

“Esta estratégia fisiológica os eleva ao topo da cadeia alimentar, ou seja, tornam-se predadores de espécies de peixes menores, porque adquirem maior agilidade mental e melhor visualização de suas presas”, esclarece Landeira.

A pesquisa do grupo da UFRJ é focada no estudo do tecido produtor de calor nos marlins azuis. Esta estrutura se deriva do tecido muscular esquelético dos olhos (estrutura que possibilita a movimentação do globo ocular). “No entanto, o órgão do calor não possui as proteínas responsáveis pela contração muscular, apenas mitocôndrias, retículo endoplasmático e as proteínas envolvidas na ciclagem de cálcio através do reticulo. Acredita-se que a produção de calor por esse tecido aconteça através dos ciclos fúteis de cálcio. Em um tecido muscular normal, a contração muscular é disparada por um aumento da concentração de cálcio no citoplasma, que sai do reticulo endoplasmático da célula e se liga às proteínas contráteis, promovendo a contração. No tecido do calor, o cálcio é liberado no citoplasma, mas não há produção de trabalho (contração). O cálcio, assim, é posteriormente recapturado para o interior do retículo pela Ca2+-ATPase, a enzima que transporta o cálcio novamente para o interior dessa organela às custas da hidrólise (quebra) de ATP. Esse processo gera ciclos fúteis de cálcio, que produzem apenas calor”.

Os peixes de bico são capazes de mergulhar em alta profundidade, algo em torno de 200 metros, em águas de aproximadamente 10oC, ao menos aqui no Rio de Janeiro. A temperatura cranial destes animais está sempre em torno de 25oC. Em peixes ectotérmicos, o metabolismo energético torna-se mais baixo em águas frias, algo que não acontece completamente em animais endotérmicos. Trata-se de uma estratégia evolutiva, de diferenciação em relação às outras espécies, explica Landeira.

03/11/2008

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