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Por dentro das engrenagens da memória

Por Cília Monteiro

Um estudo inédito sobre memória é realizado no Instituto de Bioquímica Médica (IBqM) da UFRJ: trata-se da investigação de como processos de reconsolidação e extinção de memória interagem entre si. Esse conhecimento é importante para se saber como fármacos afetam nos dois processos. A novidade é que a pesquisa, liderada pelo professor Olavo Bohrer Amaral, é focada na rede de neurônios, enquanto a maioria dos estudos nessa área está centrada no campo molecular.

“Acreditamos que os mecanismos moleculares desses processos podem ser muito parecidos, o que seria diferente é em quais sinapses eles estão funcionando”, revela o pesquisador. Nesta visão, a reconsolidação representaria a atualização de uma memória já existente de acordo com novas informações, enquanto a extinção seria a formação de uma memória envolvendo outros neurônios e sinapses.

Desta forma, o trabalho do pesquisador avalia dados controversos nos quais as mesmas drogas podem afetar, bloqueando ou melhorando, tanto a reconsolidação como a extinção. Assim, dependendo da forma com que se reativa uma memória aversiva, por exemplo, a mesma droga poderia ‘fortalecê-la’ ou ‘enfraquecê-la’, e não se tem uma boa explicação sobre como isso acontece. “Tentamos formular uma hipótese sobre isso, usando um modelo computacional de redes neurais. Naturalmente, essas hipóteses devem ser validadas através de estudos experimentais, o que tentamos fazer agora”, explica o professor.

“A literatura contabiliza centenas de drogas que podem melhorar ou piorar a memória em modelos animais. Portanto, é surpreendentemente fácil manipular uma memória simples em laboratório. Porém, a transposição deste conhecimento para maneiras úteis de manipular a memória em humanos tem sido pouco efetiva até agora”, explica Olavo Amaral. Segundo ele, uma das possíveis razões para isso é o fato de que formar memórias mais fortes não necessariamente nos faz melhores ou mais inteligentes.

Afinal, nosso cérebro foi programado pela evolução para lembrar-se das coisas importantes, mas também para esquecer episódios irrelevantes. “De fato, existem diversos relatos na literatura de pessoas com memórias enciclopédicas que se mostram incapazes de funcionar no dia-a-dia”, comenta Olavo. Assim, ele acredita que, mais do que simplesmente fortalecer memórias, é preciso construir conhecimento para poder manipulá-las de maneira mais seletiva e sábia.

Esse estudo pode vir a ajudar no tratamento de transtornos psiquiátricos relacionados a memórias muito rígidas ou disfuncionais, como fobias e estresse pós-traumático. Também pode ser útil para que se entenda como o cérebro consegue armazenar e utilizar informações controversas sobre um mesmo contexto. “Ainda estamos no começo do trabalho”, enfatiza. “Mas existem grandes expectativas em relação aos resultados”.



09/07/2010

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