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Neurônios e hemoglobinas – uma combinação danosa ao cérebro

Priscila Biancovilli

Uma pesquisa desenvolvida por Flávio Lara, pós-doutor do Instituto de Bioquímica Medica da UFRJ, juntamente com os pesquisadores Vivaldo Moura-Neto (do Departamento de Anatomia, UFRJ), e Marcus Oliveira (IBqM-UFRJ) foi capa da edição de junho do periódico Journal of Cerebral Blood Flow and Metabolism, revista pertencente ao grupo britânico Nature Publishing Group.

“A pesquisa foca em ponto extremamente importante dentro da área de neurociências, as hemorragias cerebrais. Existe um consenso na literatura que mostra que o cérebro é um tecido especialmente sensível a situações de estresse traumático, infeccioso e hiperglicêmico, entre outros. Sabemos que estes estímulos danosos são muito mais deletérios para o cérebro do que para outros tecidos do corpo. No caso das situações hemorrágicas, os prejuízos podem ser ainda maiores. Parte do efeito prejudicial do sangue no cérebro se deve ao fato de a hemoglobina – um de seus componentes majoritários – ser neurotóxica. Dentro do contexto celular do cérebro, os neurônios se apresentam como uma das células mais sensíveis a esta molécula”, explica Marcus.

Esta pesquisa da UFRJ buscou entender melhor como se dava o destino dos produtos do sangue em dois tipos celulares abundantes no cérebro: os neurônios e os astrócitos. Os neurônios caracterizam-se por conduzir impulsos nervosos para o corpo e deste para a célula nervosa. Já os astrócitos têm múltiplas funções, como exemplo, fornecer suporte metabólico para o funcionamento dos neurônios, exercer papel central na regeneração a lesões, além de controlar o tônus vascular cerebral.

Em experimentos in vivo – usando ratos – e in vitro, os estudiosos notaram que a captação dos diferentes produtos derivados do sangue (especialmente a hemoglobina e o heme, molécula que confere ao sangue a coloração avermelhada) é muito mais eficiente nos neurônios do que nos astrócitos. “Esta foi a grande descoberta do nosso trabalho. Com isso, levantamos a hipótese de que a toxicidade da hemoglobina e do heme nos neurônios se deve ao fato de essas células captarem derivados do sangue de forma muito mais eficiente que outras células do cérebro”, afirma o professor do IBqM. 

Esta pesquisa tem um valor particular para o Rio de Janeiro, que, por alguma razão ainda desconhecida, é o estado brasileiro com a maior prevalência de óbitos por acidentes vasculares cerebrais (AVCs) hemorrágicos, em torno de 72 óbitos para cada 100 mil habitantes. As sequelas de um AVC hemorrágico são muito mais severas que o AVC isquêmico (quando há falta de suprimento sanguíneo para os tecidos cerebrais). “Ainda não sabemos se isso tem a ver com o fato de a hemoglobina e seus produtos exercerem um efeito tóxico adicional. Talvez isso seja verdade, mas ainda não podemos afirmar com toda propriedade”, analisa.

O grupo desenvolve seus estudos com análises das alterações funcionais e metabólicas nos neurônios e astrócitos frente à presença de hemoglobina e heme, e os focalizam especificamente sobre a função das mitocôndrias – organelas envolvidas na produção aeróbica de ATP. Possivelmente, os mecanismos envolvidos na neurotoxicidade dos produtos derivados do sangue dependam de uma disfunção mitocondrial e, portanto, energética nessas células. Para o futuro, existe a possibilidade de o grupo desenvolver moléculas capazes de impedir que os produtos derivados do sangue causem danos especificamente aos neurônios, já que os astrócitos são mais resistentes. “No entanto, necessitamos interagir com pesquisadores que tenham prática em screening e também possuam uma boa biblioteca de moléculas que possa ser testada para esse fim”, completa.

 

 

01/07/2009

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